Mais de três anos depois de um dos proprietários da Agrodeltha, ceralista de Júlio de Castilhos, registrar um boletim de ocorrência na polícia relatando possíveis irregularidades na compra e venda de soja, a Polícia Civil concluiu as investigações.

Na manhã desta quarta-feira, a delegada Alessandra Padula, detalhou como funcionava o caso durante uma coletiva de imprensa no Centro de Cultura Álvaro Pinto, em Júlio de Castilhos (acompanhe a gravação da coletiva feita pelo Diário). Os nomes das 32 pessoas indiciadas pelos crimes de furto qualificado, falsidade ideológica, associação criminosa, crime contra a ordem tributaria, e crime contra o sistema financeiro nacional não foram divulgados porque o caso corre em segredo de Justiça.
Polícia investiga sumiço de soja de cerealista em Júlio de Castilhos
Conforme a delegada, foram analisadas 141 contas bancárias e 90 depoimentos foram tomados para chegar aos indiciados. O esquema lesou a cerealista e produtores rurais em mais de R$ 7,5 milhões e durou pelo menos seis anos (de 2009 a 2014).
- A gente não pretende esgotar o assunto Agrodeltha. A empresa está em processo de recuperação, de falência. Esses valores (os R$ 7,5 mihões) eu já adianto que são os valores que a gente apurou neste inquérito, não são o total desviado da empresa. Com certeza, os valores apurados durante o processo de falência serão bem maiores - afirmou a delegada.
Entre os indiciados estão dois ex-funcionários da cerealista, a ex-mulher e ex-sogra de um deles. Um dos ex-funcionários seria o mentor do esquema.
Os outros indiciados serviram como "laranjas" no esquema: eles possuíam bloco de produtores rurais e os emprestavam, assim como suas contas bancárias, para vender grãos de soja que nunca existiram fisicamente, ou seja, era "soja virtual". A maioria dos indiciados não é produtor rural, mas, mesmo assim, tinha bloco de produtor rural para ter acesso a benefícios como empréstimos e financiamentos bancários, o que justifica o grande número de pessoas apontadas pela polícia.
COMO FUNCIONAVA O ESQUEMA
Conforme o inquérito policial, o mentor do esquema seria um funcionário de confiança da cerealista. A fraude, segundo a apuração da Polícia Civil, era feita a partir de emissão de novas fiscais pelo mentor do esquema. Ele assinaria os contratos de compra de soja atestando que o produto tinha sido entregue à cerealista pelos supostos produtores rurais, que atuavam como laranja. O pagamento era feito na conta dos laranjas, mas a soja não era entregue.
Soja que "sumiu" de silo em Júlio de Castilhos pode chegar a R$ 6 milhões
O curioso é que os contratos nunca foram assinados em nome da Agrodeltha, e sim, em nome do mentor do esquema. Os contratos falsos circulavam junto a compras legais e reais e, por isso, a polícia acredita que foi possível mascarar a fraude por tanto tempo. Segundo a delegada, o esquema foi descoberto depois que um dos dois donos se deu conta que o dinheiro pago pela soja não equivalia ao volume de produto estocado na cerealista.

O funcionário que esquematizava as notas fiscais ganhava R$ 1,7 mil de salário, e sua ex-mulher relatou à polícia que não trabalhava. O casal, porém, movimentou, entre os anos 2013 e 2014, mais de R$ 200 mil em compras de móveis, eletrônicos, roupas, calçados, pet shop, viagens, cartão de crédito e parcelas de consórcios.
OUTRA CEREALISTA
O golpe também teria envolvido uma outra cerealista, que mantinha parceria com a Agrodeltha.
- Ele (0 mentor) usava o bloco de produtora rural da sogra dele. Como ele não podia usar o nome da sogra para vender soja para a Agrodeltha, porque saberiam que ela não produzia um só pé de couve, ele vendeu soja em nome dela para a outra empresa. Quem pagou todo o prejuízo foi a Agrodeltha - detalhou a delegada.
O DESTINO DO DINHEIRO
Em alguns casos, 100% do dinheiro que era pago ilegalmente aos laranjas ficava com o mentor do esquema. Em outros casos, o valor era dividido entre o mentor e o laranja. A Polícia não identificou um padrão de como a divisão era feita. Em cada caso, era um acerto diferente.
Na época que as investigações começaram, a Polícia Civil chegou a pedir duas prisões preventivas de dois funcionários da empresa, mas elas não foram cumpridas por ser período eleitoral.
_ Depois, não houve mais prisões porque não havia os critérios necessários para a Justiça conceder os pedidos _ explicou a delegada.
Nenhum dos indiciados está preso. Durante a coletiva de imprensa, produtores rurais comentavam que o mentor do esquema ainda mora em Júlio de Castilhos.
OS LESADOS
Assim que o esquema veio à tona, ainda em 2014, os produtores que tinham soja armazenada na cerealista quiseram vender o produto, para evitar prejuízos. Com isso, a empresa não teve dinheiro para pagar todos os produtores que tinham soja armazenada e até tentou parceria com outras empresas, sem sucesso. Assim, a solução foi dar entrada com processo de falência. Estima-se que mais de 100 produtores deixaram de receber nesta época.
Até hoje, a Polícia Civil não sabe informar o número de produtores rurais lesados no esquema. Isso porque a maioria não registrou ocorrência. Somente 13 registros policiais foram feitos por produtores informando do caso.
Ainda há tempo de quem se sentiu lesado informar que perdeu dinheiro. A orientação é que os produtores busquem a Justiça para ingressar como credor no processo de falência.
A reportagem entrou em contato com Daniel Feijó, advogado que representa a Agrodeltha. Ele informou que desde que o esquema veio à tona o caso foi registrado pelos proprietários na Polícia Civil mas que também foi investigado internamente e o relatório das auditorias que foram feitos foram entregues à investigação. Ele disse que os proprietários estão satisfeitos com o resultado do inquérito e aguardam o resultado judicial.